
Caro Diretor Nacional de Jornalismo da Rede Record.
Venho por meio desse post, manifestar, em nome de toda a comunidade gamer, o repúdio ao desserviço apresentado por vocês no periódico “Domingo Espetacular”, ao qual vocês afirmam ser uma “reportagem”.
Vamos começar definindo a palavra “reportagem”:
“A reportagem é um género jornalístico baseado no testemunho direto dos fatos.”
Baseado eu nessa simples definição, se conclui que o teor do que foi apresentado sequer pode ser considerado uma reportagem, pois seu conteúdo é tendencioso, impreciso e absolutamente iverídico.
Munido do meu remédio anti-vômito, me dispus a assistir a atrocidade exibida em rede nacional no dia ontem para catalogar a quantidade de inverdades e imprecisões proferidas pela sua equipe de jornalismo:
1. Não existe nada que comprove que jogos eletrônicos por si influenciem o comportamento violento. Muito pelo contrário; o escapismo desses jogos ajuda a diminuir o estresse do dia a dia, o que já foi comprovado por pesquisadores.
2. A maneira tendenciosa com a qual foram editadas as primeiras cenas da matéria, denota o quanto a reportagem tinha de sua função real de reportar algo, ou seja, nada. A única coisa que eu enxergo ao ver as imagens é que pessoas que não sabem do que estão falando tentam passar a sua opinião de algo que não se dispuseram a pesquisar (função do repórter passou longe…), para influenciar pessoas que não têm uma opinião formada a respeito a “assumir um lado”, o que a meu ver, o descaracteriza completamente como reportagem e assume o teor de lavagem cerebral.
3. A única coisa citada na reportagem que teve um leve teor de realidade, foi quando vocês disseram que o atirador tinha graves distúrbios mentais. Digo que o teor de realidade foi leve, pois vocês, convenientemente esqueceram de ressaltar o fato de o assassino ser um fanático religioso.
4. Mais uma contradição: como ele poderia viver isolado, mas mesmo assim, ter um colega? A falta de coerência é gritante! Sem falar no depoimento do entrevistado, que relata que ficou “assustado” com os jogos que Wellington possuía. Uma declaração que, sinceramente, não faz nenhum sentido. Vale ressaltar o quão vago é o discurso: “Falava aí tal, isso e aquilo”, “Jogos mais atuais”… O que isso acrescenta a discussão?
5. Nota-se o quão a sério vocês levam a indústria de jogos eletrônicos e quanto vocês estão cientes do que estão falando. Afinal, vocês se preocupam em creditar as imagens do filme “Clube da Luta” (Fight Club- Fox Home Entertainment), mas não têm o mesmo cuidado ao mostrar cenas de jogo que possuem os mesmo direitos autorais e de reprodução pública reservados.
6. Mais uma vez, o ataque gratuito ao que não é o foco do problema. Vocês se atentam ao fato do “Louco do cinema” jogar videogame, mas não atacam o fato de ele ter conseguido uma sub-metralhadora. Aliás, é possível obter uma dessas legalmente?
7. A palavra “adepto”, foi usada de forma descriminatória, como um indivíduo que é adepto ao uso de drogas, por exemplo.
8. Outra informação errada: “Jogos violentos e proibidos”. Os jogos tem classificação indicativa, ou seja, têm um alerta ao aos responsáveis do conteúdo que está contido no jogo em si. Isso NÃO os tornam proibidos. Vale lembrar um fato, poucos jogos tiveram proibição real de distribuição no Brasil. Cito alguns: Counter Strike (que teve a proibição revogada em 2009), Everquest (jogo que sequer foi lançado oficialmente em território nacional), Carmagedom, Doom (jogos que, apesar de possuir conteúdo violento e ter sua classificação etária voltada a maiores de idade, não tem nenhum nexo com a realidade. ou por acaso vocês vêem critaturas deformadas passeando pela rua?) e Bully, um jogo que teve sua classificação indicativa definida pelo Ministério da Justica para 14 anos, e mesmo depois da proibição, é facilmente encontrado em lojas que vendem produtos falsificados.
9. Mais uma agressão gratuita: “Pessoas com transtornos mentais que foram inspiradas pelos jogos”. Gostaria de saber onde está a realidade nessa afirmação. Ela apenas ofende a inteligência de pessoas que têm um mínimo de conhecimento do assunto que vocês estão erroneamente tratando.
10. A respeitável senhora que vocês nos apresentam como ‘Psicanalista”, dispara uma infinidade de boçalidades em pouco menos de um minuto de participação. Baseado no que ela diz isso? Ela fez Psicanálise baseado em mídias interativas? Onde estão os dados da pesquisa que ela realizou para chegar a sua brilhante conclusão de que jogos eletrônicos causam a mesma dependência de drogas ilícitas, como o crack?
11. Ofensa gratuita é algo rotineiro a vocês. Nesse trecho que estou, as vítimas são os pequenos e micro empresários do ramo de serviços de internet, ou “lan-houses”. Vocês os tratam como se fosse donos de uma boca de tráfico de drogas, ou donos de prostíbulos, ou de qualquer atividade ilícita que vier a sua cabeça nesse momento. Sinto pena desses profissionais que não têm como se defender dos ataques gratuitos que eles sofrem de entidades sujas como vocês, que não dão a mínima para o sustento da família desses cidadãos de bem.
12. Vale ressaltar o “exemplo” de pessoa que joga videogames que vocês entrevistam na Lan House. Claramente, uma pessoa que não tem capacidades intelectuais para representar toda a comunidade. Fala gírias e explica o que acontece no jogo, tão bem quanto o público desinformado e semi-analfabeto que tem mais identificação com seu canal explicaria.
“Caça nóis e nóis tem que caçá eles!”
13. “Os Games violentos, são simuladores quase reais, do que existe de PIOR no cotidiano”. Precisa comentar?
14. Mais um erro ridículo na condução do texto dessa lambança: A descrição do GTA. “… roubar um caro, roubar…”
15. Agora o pior. Couter Strike, segundo vocês, é um jogo “formado por um esquadrão de terroristas”. A descrição é tão verídica quanto a do “jornalista” do O Globo, que diz que em “Couter Strike e GTA, ganha-se mais pontos quando se atiram em idosos e crianças”.
Como se existissem idosos e crianças nos jogos em questão.
Como se não existisse o time “Couter Terrorist” em Counter Strike.
Em pouco menos de 6 minutos de reportagem, 15 tópicos levantados.
E sabe o que é engraçado? Vocês se apresentando a sociedade como os paladinos do bons costumes, mas logo após o término desse monte de lixo comandado pelo “Jornalista Credibilidade”, Paulo Henrique Amorim, vocês me exibem um filme muito interessante na Super Tela.
Mais uma vez, me dei ao trabalho de desperdiçar meu tempo precioso com vocês para admirar o conteúdo altamente educativo e construtivo da sua programação. Obviamente, essa programação que vocês nos dispõem, forma apenas cidadãos de bem, ao contrário dos nocivos e degeneradores videogames.
O filme se chamava “No Rastro da bala”.
Vou dar uma resumida nas cenas que eu assisti.
- Adulto aparece armado na frente de uma criança.
- Senhor de idade espanca uma prostituta, proferindo incontáveis palavrões. A prostituta revida, com a mesma linguagem inadequada. Tudo isso na frente de uma criança.
- Numa casa noturna com prostitutas nuas, um personagem que claramente não é o policial, põe a arma na cara do outro e alega que “ele é a lei”.
- Agora, o personagem principal do filme, agride verbal e fisicamente uma criança. De fato, um herói.
- O herói do filme, adentra uma casa onde temos quatro pessoas entre apostas ilegais, consumo de bebidas e drogas ilícitas. Ele põe uma arma na cabeça de um dos quatro e profere várias ameaças.
- Mais uma do nosso herói: como argumentar em uma discussão? Ateando fogo em quem discute comigo, é claro!
- Uma mulher mata um casal, que tinha prendido uma criança com um saco plástico amarrado na cabeça em um armário.
- A sequência final é uma sucessão de assassinatos e mutilações, em frente das crianças, obviamente.
Enfim, do mesmo jeito que os jornalistas de games não escrevem sobre o dia a dia da cidade, vocês não deveriam se atrever a escrever sobre games. Outra coisa, estamos no século XXI, qualquer adolescente que não têm contato com games hoje em dia é, de certo modo, fora do padrão.
Por isso, depois de todos esses indicativos de que a sua reportagem foi imprecisa, tendenciosa e enganosa, que, em nome de toda a comunidade gamer do Brasil, pedimos uma retratação por parte de sua equipe jornalística. Pois o que vocês fizeram foi apenas enganar e ludibriar, além de apresentar opiniões próprias, sem nenhuma pesquisa ao invés de apresentar os fatos.
Atenciosamente,
Rodolfo Brito.



